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Relatório Azul 97

1 - Abuso Sexual

Os Anjos violados no Rio Grande do Sul

Os anjos violados do Rio Grande

10/11/97

O incesto destrói crianças e adolescentes em todo o território. Abre uma trilha de prostituição, loucura e violência. Cria uma geração de meninos e meninas assinalados pela genética. É a face obscura da família gaúcha. Desde ontem, Zero Hora revela aos leitores a anatomia deste crime silencioso e devastador.

Um mal que só pode ser barrado se for descoberto, denunciado e tratado. Menos um mero caso de polícia, mais um problema de saúde pública. Uma jornada pela degradação humana que se encerra amanhã. Os nomes das vítimas foram omitidos para impedir sua identificação.

Uma parte das crianças e adolescentes do Rio Grande do Sul vive em campo minado. Há um rastro de meninos e meninas brutalizados que termina no interior de lares gaúchos. Calados a força pela família, muitas vítimas de incesto fogem de casa e se prostituem. Outras aumentam as estatísticas dos centros de adolescentes infratores. Há ainda aquelas que enlouquecem e vão abarrotar os hospitais psiquiátricos. Poucas se salvam. E pouco tem sido feito para salvá-las.

Como M., 11 anos, filha de uma índia caingangue prostituída. A menina tinha cinco anos quando a mãe foi assassinada e ela despachada para a casa de uma tia materna em Nonoai, na região do Alto Uruguai. Dos seis aos 11 anos foi violentada pelos dois primos mais velhos. Depois que a professora denunciou, assustada com os hematomas e dentes quebrados da criança, foi adotada por um casal idoso. Teve de deixar a casa porque o pai adotivo abusou dela. Tenta agora a segunda adoção.

Meninas como M. não estão sozinhas na devassidão dos parentes. Apesar de preferidas no desejo doentio de familiares, pesquisas mostram que o número de meninos violados pode chegar a um terço dos casos. São garotos como J., morador da zona sul de Porto Alegre. Ele é filho de um homem que é seu pai e também seu avô. Sua mãe foi estuprada pelo próprio pai aos 16 anos, e o gerou. Aos oito anos e cinco meses, J. foi violentado pelo pai-avô. Ele tem hoje 10 anos.

‘Além de todo o trauma, os meninos ainda sofrem com um outro estigma, o do homossexualismo’, analisa o psicólogo Christian Kristensen, que fez seu mestrado na UFRGS sobre abuso sexual de meninos. ‘Precisam lidar, além da violação, com a suposta perda da masculinidade associada à violência a que foram submetidos.’

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Europa provam que crianças abusadas são 10 vezes mais suscetíveis a retardo mental. Mais da metade das mulheres internadas por problemas psíquicos foi agredida sexualmente no passado.

É o incesto que está por trás da maioria das prostitutas e michês infantis. ‘Pelo menos na rua eu escolho quem vai ficar comigo’, desabafou uma prostituta de 12 anos no centro de Uruguaiana. ‘Em casa, tenho de agüentar o nojento do meu pai.’

Vítimas de incesto apresentam o que os especialistas chamam de transtorno de estresse pós-traumático: o impacto do abuso sexual é tão terrível que, como forma de se defender, as crianças rompem com a realidade e adotam um comportamento psicótico. ‘Ser vítima de incesto causa um impacto psicológico apenas igualado ao de ter sido preso em campo de concentração ou sobreviver a uma queda de avião’, afirma o geneticista e professor da UFRGS Renato Zamora Flores. ‘Não é necessário que haja uma relação sexual completa, o que está em jogo é a quebra de confiança entre alguém mais frágil e aquele que se aproveita de uma posição de poder para obter recursos sexuais.’

Violentada pelo pai quando a mãe saía de casa para trabalhar, uma menina de oito anos começou a exibir um comportamento psicótico. A garota passou a ver o facão voar pela cozinha e se cravar na cabeça do pai. Outras vezes ouvia vozes que lhe ordenavam a morte do genitor. De olhar parado, vazio, um dia entrou no açude do sítio onde viviam em Viamão, na Região Metropolitana. Uma vizinha a salvou quando já estava com água pela cintura.

‘O incesto é um problema de saúde pública’, afirma o coordenador do Ambulatório de Maus-Tratos de Caxias do Sul (AMT) e professor da Unisinos, o psicólogo Renato Caminha. ‘Sem tratamento, suas vítimas não têm nenhuma chance: se prostituem, se drogam, se transformam em pessoas violentas ou doentes mentais.’ O AMT é exemplar único no Estado: braço técnico do conselho tutelar e do Judiciário, sustentado pelo município, ele mantém há um ano uma equipe multidisciplinar para atender somente a casos de abusos físicos e sexuais. Fora de Caxias do Sul e de Porto Alegre, não há tratamento para vítimas de incesto em nenhum outro município. Sem tratamento, não há salvação para as crianças imoladas por quem as deveria proteger. E este é o segundo crime cometido contra as vítimas de incesto no Rio Grande do Sul.

Prostituta adolescente

J. tem 15 anos. Foi estuprada pelo pai aos oito. E culpada pela mãe até hoje. Nem a menina nem a mãe jamais tiveram tratamento. A garota já entrou em coma numa tentativa de suicídio e, desde o ano passado, se entrega por R$ 30 a um homem casado, de 60 anos, nos motéis do município de Ijuí, no noroeste do Estado.

‘Foi no dia 10 de janeiro de 1990 que o pai me pegou. Eu nunca esqueço porque sempre quero morrer neste dia. Antes disso ele já tinha tentado me violentar duas vezes. Fiquei três dias com dores e hemorragia. Aí a mãe ficou com medo, me levou à polícia e ele pegou 20 anos de cadeia. Fiquei um mês no hospital. Sabe, eu queria casar, ter uma casa e uma família. Acabou tudo. Parei de estudar na 3ª série porque os colegas descobriram. Cheguei a arrumar um namorado, mas quando ele soube me largou. Com 11 anos um cara me violentou no mato, dizendo que até o meu pai me pegava. Mas o pior é a minha mãe. Ela fica berrando que eu sou culpada pelo que aconteceu. Diz que fui eu que seduzi o meu pai. Eu digo para ela que posso ter corpo de mulher, mas ainda sou criança. Peço para a mãe me dar carinho, mas desde que o pai me estuprou ela não consegue tocar em mim. Conheci este velho e sobrevivo com o que ele me dá. Dá nojo, mas eu não tenho futuro mesmo. Para mim, só resta morrer.’

O beijo do incesto

Aos dois anos, G. acordou com os gritos da irmã de 15 anos. Ela acabara de ter a cabeça aberta a golpes de porrete pelo padrasto. ‘Ele tem ciúme de mim porque há anos me faz de mulher’, soluçava a irmã. Nunca mais nasceram cabelos sobre a marca do incesto. A irmã deixou Pelotas e partiu para Santa Vitória do Palmar, onde se prostituiu. Quando G. tinha 11 anos, foi violada pelo pai. ‘Se contar, também não vai mais nascer cabelo na tua cabeça’, ameaçava. A menina resistia. Então era espancada. O irmão perguntava: ‘Mãe, tu não achas que o pai tem um jeito estranho com a mana?’ A mãe desconfiava, mas preferia não ver. ‘De onde eu vim, lá dos grotões do Estado, tem muita família onde a filha tem filhos do pai’, desculpou-se . ‘Sou ignorante, não sabia que era crime.’ Dia 13 de maio foi o último estupro. G. esperou a mãe na porta de casa e foram à polícia. Uma semana mais tarde, o pai foi preso. G. segue chorando: ‘O pai fazia eu trair a mãe. Isso era o pior de tudo. Ele dizia que era melhor manter o segredo em família, que ninguém ia falar mal de mim. Mas eu não queria.’ G. guarda o ursinho encardido de pelúcia que a irmã lhe legou antes de partir. ‘Sabe, eu nunca tinha beijado’, sussurra. ‘Só o meu pai me deu beijo na boca.’

A marca da genética

Os filhos do incesto espalhados pelo Rio Grande esculpem uma das faces mais tenebrosas do abuso sexual infligido por parentes. A maioria é marcado pela lógica implacável da genética. Cerca de 80% das gestações entre parentes, conforme pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos, resultam em malformações físicas, retardo mental e alterações de metabolismo. Pelo menos 20% das gestações incestuosas são encerradas por um aborto. Há cerca de 10 mil doenças relacionadas à cópula entre parentes.

A marca do incesto assinalou o casal de filhos de S., 24 anos. Aos 12 anos sua mãe morreu e ela assumiu a casa. Aos 13, foi violentada pelo pai. Aos 14, engravidou pela primeira vez. Ainda levou uma surra do pai, ansioso por disfarçar a paternidade. A primeira foi uma menina, o segundo filho do pai um menino. Os dois, um com sete e outro com cinco anos, têm atraso de desenvolvimento. S. vive hoje com o pai, os filhos e os irmãos mais novos numa casa humilde da Avenida Ipiranga, em Porto Alegre. De tempos em tempos, a família precisa se mudar porque a vizinhança começa a desconfiar da filha sem homem, do pai sem mulher. ‘Não suporto mais esta vida’, desabafa. ‘Aí olho para os meus filhos e penso que não posso condená-los pelo que são.’

De oito crianças avaliadas pelo geneticista Renato Flores, todas apresentaram doenças e malformações por causas genéticas. Um menino de cinco anos gerado entre pai e filha não consegue falar e sofre uma degeneração progressiva dos músculos. ‘O incesto faz mal’, afirma Flores. ‘Genes defeituosos em dupla podem matar.’

A outra face sórdida do incesto tem sido desnudada nas escolas especiais do Estado. Embora sem estatísticas, profissionais que trabalham com crianças com algum tipo de deficiência - principalmente mental - acreditam que eles são as vítimas preferidas de abusos sexuais. ‘Em famílias com vários filhos normais, é o deficiente que é escolhido para ser violado’, afirma a orientadora pedagógica de uma escola especial da Capital, que não será identificada para não expor os alunos. ‘Os familiares abusadores escolhem o deficiente porque ele é mais vulnerável, tem poucos recursos para se comunicar e, portanto, menos condições de contar o que está acontecendo.’

Numa pesquisa realizada em uma escola de deficientes mentais da zona sul de Porto Alegre, Flores encontrou um índice de 10,9% de incesto. ‘Não é muito diferente da estatística que encontrei em adolescentes intelectualmente normais’, diz o geneticista. ‘Mas é um índice alto porque nesta amostra as crianças eram muito mais jovens e já tinham sido abusadas por familiares.’ De 39 casos de incesto ocorridos na região de Santa Maria e Grande Porto Alegre, o professor detectou que 7,7% das vítimas apresentavam retardo mental: valor 150% maior que a freqüência de deficientes na população geral, estimada em 3%.

O rosto mais cruel desta realidade chocou a população de um município do Planalto Médio em 22 de novembro de 1996. Nesta data, um adolescente de 17 anos violentou a irmã: uma menina quase vegetativa de 15 anos, 18 quilos e não mais de um metro de comprimento, que só consegue mexer as mãos. A menina gritou, mas os vizinhos acharam que era mais uma de suas crises de dor de garganta. Foi encontrada quase morta. Meses atrás, o menino contou que aos 11 anos havia sido violentado por um vizinho e, desde então, era chamado de homossexual na vila. ‘Eu não sei por que fiz isso’, desabafou. ‘Dói tanto que não consigo pensar.’

Ao contrário da crença geral, o incesto não aproxima os seres humanos dos animais - nem transforma o homem numa besta. A freqüência de relações incestuosas entre a maioria das espécies de aves e mamíferos, conforme pesquisas na área da biologia e da genética do comportamento, é de apenas 1% a 2%. Entre os homens, não há uma medição deste tipo, mas os cientistas acreditam que pode chegar a 20%. Em algumas famílias de bichos, as fêmeas deixam de ovular quando só há parentes disponíveis para a procriação, movidas pelo instinto de que o sexo entre iguais enfraquece a espécie e reduz suas chances de sobrevivência. ‘O incesto é essencialmente humano’, afirma Flores. ‘E isso é o que parece assustar as pessoas.’

A história que a boneca ouviu

J. é uma menina de nove anos que quando sorri o mundo fica bom. Mas ela já viu o pior do mundo. Ela foi violada pelo pai aos sete anos, em 18 de fevereiro de 1995. Quando deixou o hospital, nenhum profissional conseguiu arrancar uma palavra dela. Ela só contou a dor de sua infância abortada dias mais tarde, a uma boneca de plástico, daquelas bem baratas, que as garotas acostumadas com as barbies não querem mais saber. Essa boneca não mexe nem os olhos. Mas é uma boa ouvinte.

Depois de profanar a filha, o pai preparou um samba (cachaça com coca-cola) e esperou a mulher chegar. Se a mãe retornasse minutos mais tarde, J. estaria morta. A cena era tão terrível que o médico do hospital saiu gritando em busca da polícia no município dos Campos de Cima da Serra.

O pai foi preso no mesmo dia. A mãe e os quatro filhos reuniram tudo o que havia na casa, arrancaram o pai de todas as fotografias e fizeram uma grande fogueira. ‘Queima, demônio’, as crianças gritavam, cutucando as labaredas com pedaços de pau. Quando as brasas se apagaram, abandonaram a casa e jamais voltaram.

O estupro da filha mais velha encerrou uma longa série de terror familiar. A mãe era espancada desde a gestação do primeiro filho. Da gravidez da terceira, guarda uma cicatriz da facada desferida contra sua barriga. Numa das muitas bebedeiras, o pai chegou a pendurar o filho nas vigas do telhado. Em outra, brincou de atirador de facas com as crianças. Fez um buraco na parede e espiava as filhas tomando banho. ‘O pai dizia que ia me enforcar se eu contasse para a mãe, eu não podia gritar nem chorar, meu irmão até acha engraçado que eu choro sem sair lágrima’, conta J. à boneca. ‘Sabe, eu peço a Deus para um dia ser feliz.’

O pai segue controlando a vida de todos da prisão, como se fosse onipresente. Persegue todos os passos da família, envia cartas à esposa ameaçando-a de morte. Tatuou o nome dos filhos no braço. Conta um sonho repetido: ‘Eu estou deitado num gramado bonito e meus filhos correm pra mim.’ Em sua nova casa, a mãe também tem um sonho contumaz: ‘Ele sai da prisão e arrebenta a porta com o braço. Eu atoro a mão dele com uma faca. E a mão decepada vem atrás de mim. Eu corto em pedaços mas eles continuam se mexendo e vêm atrás de mim, gritando o meu nome.’ J. se queixa de que os colegas a perseguem chamando-a de ‘estupradinha’ e conta seu próprio pesadelo: ‘Ele sai da prisão e vem com um machado atrás de nós. Mas a gente salta pela janela.’

J. diz que quando pensa no pai a cabeça dói, fica tudo escuro e vê ‘todas as coisas caminhando’. Ela não recebe tratamento porque o conselho tutelar não tem nem carro, quanto mais psicóloga. J. abre o sorriso que deixa o mundo bonito e encerra a história que a boneca ouviu:

‘Eu estava sangrando, sangrando, mas aí o doutor me deu uma barra de chocolate e eu fiquei contente.’

Como tratar

Tratar as vítimas de abuso sexual é a única chance de salvá-las. O Ambulatório de Maus-Tratos (AMT) de Caxias do Sul é modelo no Brasil. O coordenador do serviço, psicólogo Renato Caminha, mostra como é simples construir um AMT em seu município ou região. Os interessados podem buscar informações e treinamento pelo telefone (054) 212-1433:

O ambulatório atende aos casos de abuso físico e sexual do Conselho Tutelar, Ministério Público e Juizado da Infância e da Juventude.

No caso de Caxias do Sul, ele é sustentado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), Associação Educacional Elen Keller (uma organização não-governamental), e Fundação de Assistência Social da prefeitura. Cada município pode encontrar a sua receita, mas é importante que o poder público esteja envolvido.

Uma casa com três salas é o suficiente para a instalação.

Uma equipe básica é composta por um psicólogo, um médico, um assistente social e um advogado. Geralmente as prefeituras dispõem destes profissionais, mas não agrupados num serviço. O médico cuidará da saúde física, o psicólogo fará o tratamento mental das vítimas, o assistente social atenderá a família e o advogado acompanhará o caso no Judiciário. Uma equipe ideal é um pouco maior: psicólogo, assistente social, ginecologista, pediatra, psiquiatra e advogado.

É obrigatório que a equipe receba treinamento adequado.

O AMT atende a toda a família, trabalha com técnicas comportamentais-cognitivas (atuando diretamente no estresse pós-traumático das vítimas), utiliza terapia individual e em grupo, e o tratamento consome de três a cinco meses.

O serviço de Caxias do Sul tem uma equipe de 10 profissionais, é informatizado e custa apenas R$ 12 mil por mês.

Como reconhecer os sinais do incesto

Crianças que sofrem abuso sexual mudam de comportamento. Mesmo adolescentes com deficiência mental podem revelar o que acontece brincando com bonecos ou por outros sinais. Professores e profissionais de saúde, principalmente, têm a obrigação legal de prestar atenção e denunciar. O local adequado para fazer a denúncia é o conselho tutelar do seu município. Observe os principais indícios:

transtorno do sono ou fadiga

atraso no desenvolvimento

comportamento sexualizado ou ansiedade generalizada

mudança de comportamento na escola

aversão a contato físico

episódios de medo ou pânico

fugas de casa ou prostituição

distúrbios alimentares

mentiras, furtos

comportamento suicida ou isolamento

abandono de antigos hábitos e laços afetivos

alcoolismo/drogadição

confusão de identidade e/ou relacionamento

infecções urinárias de repetição

Fontes: Christian Kristensen, Renato Caminha e Renato Zamora Flores

 


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